Artigo | “Evangelion: menos complexo do que parece” por Diego Almeida

Neon Genesis Evangelion, ou apenas Evangelion, é um anime shounen de mecha. Lançado entre 1995 e 1996 e animado (de maneira excelente) pela parceria entre os estúdios Gainax e Tatsunoko Production, o anime possui 26 episódios e aborda uma sociedade a beira do colapso, que seria causado por criaturas gigantes conhecidas como anjos. A mente por trás de todo o anime é Hideaki Anno, um diretor que sofre de alguns problemas psicológicos, mas teve o brilhante mérito de usar isso como inspiração para fazer esse anime. Por isso, Evangelion pode (e deve) ser entendido como uma parte da alma de seu diretor.

Para enfrentar os terríveis anjos, a humanidade cria os evas, robôs gigantes pilotados por crianças. Os evas conseguem superar o campo AT dos anjos (barreiras de energia produzidas pelas criaturas), conseguindo, dessa maneira, enfrenta-los de igual pra igual. Os evas são produzidos pela NERV, organização chefiada por Gendou Ikari, que tem por objetivo destruir os dezessete anjos e impedi-los de chegar ao GeoFront, onde encontra-se Lilith, a progenitora da humanidade. O contato entre um anjo e Lilith causaria o terceiro impacto, acabando, assim, com a humanidade. Uma das crianças, pilotos dos evas, chama-se Shinji Ikari, o nosso covarde e tímido protagonista, filho de Gendou, líder da NERV. Shinji inicialmente se assusta com os evas e não aceita ser piloto, aterrorizado não só pelos anjos, mas também pelo seu conflito interno de autoafirmação para si e para os outros. Mas Shinji aceita pilotar quando vê que a outra opção de piloto, Rei Ayanami, está ferida e sem condições de pilotar. Outras personagens importantes apresentadas nesse primeiro momento são a Misato Katsuragi, chefe de operações da NERV (que passa a morar com o Shinji) e Ritsuko Akagi, que comanda a tecnologia das instalações. 

Bem, esse é o panorama geral do anime, apresentado no primeiro episódio. Logo de cara já surgem várias dúvidas ao espectador, sobre a natureza dos anjos, o que realmente está acontecendo com aquela sociedade, porque os pilotos dos evas são crianças. Ao longo dos episódios, mais dúvidas e mistérios são apresentados, e as respostas são menos frequentes. É como se uma neblina pairasse sob determinados assuntos. Percebemos isso na forma como Gendou Ikari administra a NERV, de maneira promiscua e duvidosa. Ao longo dos próximos episódios, mais duas figuras importantes para a história são apresentadas: Ryouji Kaji, diretor da NERV na Alemanha, e Asuka Langley Soiyu, a tsundere que pilota o eva unidade 02. 

Esses personagens anteriormente citados são, de maneira geral, o núcleo onde se desenrola a história de Evangelion e todas as suas tramas. Cada personagem com seus objetivos e conflitos próprios, o que faz a narrativa caminhar de maneira muito sutil no início (lenta e arrastada, em certos momentos), até a introdução de Asuka, que torna a trama ainda mais envolvente e frenética. O pai do Shinji, por exemplo, é um dos grandes defensores do projeto de instrumentalização humana, que é uma ideia macabra que tornaria a humanidade parte de um enorme mar de LCL e uniria a consciência de todos em uma só. A SEELE, organização secreta que apoia a NERV, também deseja que a instrumentalização humana ocorra, mas diverge de Gendou em várias coisas. 

De maneira geral, é nisso que consiste Evangelion. São muitas referências religiosas, filosóficas, psicológicas que são postas ao longo dos episódios, o que enriquece bastante a obra e abre um leque de possibilidades. Eu tentei fazer um resumão dos principais pontos da história, deixando várias coisas de lado e reduzindo alguns conceitos do anime, mas foi intencional, pois o meu objetivo com esse texto não é simplesmente resumir toda a obra, mas destacar algo específico: a simplicidade desse anime. E não isso como algo negativo, muito pelo contrário. O que eu quero dizer, é que várias interpretações complexas e até mirabolantes podem ser retiradas de Evangelion, mas a mensagem final do anime é, na realidade, muito mais simples do que parece.

Como eu falei, Evangelion tem muitas sacadas religiosas, psicológicas e filosóficas em seu enredo. Anjos, Lilith, Eva e Adão são alguns exemplos de termos oriundos da cultura judaico-cristã. A cena presente nos famigerados últimos episódios, onde o Shinji é confrontado sobre a sua personalidade, a forma como os outros o veem, a forma como ele se enxerga e a sua verdadeira identidade, nada mais é do que a ideia freudiana de ego, superego e ID. O dilema do ouriço é outro exemplo disso. Tudo isso pode até parecer complexo e confuso para um espectador leigo em assuntos intelectuais, mas esses conceitos servem de base e apoio para algo muito menos complicado. O anime, de uma maneira geral, gira em torno de relações humanas e isso é algo inerente a qualquer pessoa.

São os conflitos de personalidade, de identidade de vida em sociedade que fazem de Evangelion uma obra tão interessante e envolvente. E isso está presente desde o primeiro episódio, onde o Shinji já desconfia que seu pai está interessado em pedi-lo algo, e não apenas em tê-lo por perto. Shinji começa a se perguntar porque deve pilotar o eva, pois não encontra motivação alguma, estando indiferente até mesmo ao salvamento da humanidade. E isso é muito realista, pois mesmo que muitos considerem o Shinji um personagem covarde, eu vejo as reações e atitudes dele como algo natural, devido à calamidade que a sociedade vivia. E tudo em Evangelion é muito humanizado. Essas relações entre os personagens são muito reais e condizentes com o mundo em que vivemos. Não existem idealizações e personagens perfeitinhos na história, como a Asuka insiste em nos lembras sempre que chama o Shinji de idiota, perfeitinho, ou a Rei de marionete. A Asuka, inclusive, enriquece muito a trama desde o momento em que surge para pilotar a unidade 02. É um contraponto muito importante em relação à apatia do Shinji e a conivência da Rei. O conflito do Shinji aumenta a partir disso, e o garoto começa a perceber que pilota a unidade 01 para sentir-se aceito, primeiro pelo seu pai, depois por todos os outros.

Não é à toa, inclusive, que a maioria das personagens de Evangelion seja composta por mulheres. Evangelion, como uma obra bastante madura, traz isso também como crítica ao conservadorismo japonês. Rei pilota o eva tão bem quanto o Shinji, e as operações da NERV são comandadas pela Katsuragi. Além disso, é impossível não citar o final do anime, onde Rei se nega a ajudar Gendou, dizendo “Eu não sou sua boneca”. A Asuka, por fim, eu diria que é a piloto mais qualificada, pois foi treinada para isso e possui habilidades de combate reais, diferente de Shinji e Rei. Percebemos isso quando ela precisa enfrentar os evas de produção em série com tempo limitado, uma das cenas mais violentas e brutais não só de Evangelion, como de todos os animes. E esse protagonismo feminino é muito inovador se pensarmos na época em que o anime foi lançado.

Mas, voltando para a questão das relações entre os personagens, é interessante perceber como as problemáticas do anime são bem entrelaçadas. O dilema do ouriço é o maior exemplo disso, onde uma pessoa (no caso, o Shinji), teme se aproximar demais de alguém, pelo medo de se decepcionar com aquela pessoa e se magoar. Contudo, esse não é o único exemplo. O campo AT, que significa Absolute Terror, ou terror absoluto, em bom português, representa as barreiras entre as pessoas. Essas barreiras são construídas e solidificadas por nós mesmos, devido às diferenças e individualidades, peculiaridades que nos torna diferentes, que nos torna quem somos. São justamente essas individualidades que seriam erradicadas pela instrumentalização humana. Falaremos disso mais a frente. Quanto às barreiras entre as pessoas, podemos tratar do caso de Asuka como um bom exemplo. Decidida a viver sozinha e não pedir ajuda a ninguém, a jovem sente-se mal ao perceber que precisa de Shinji e Rei para ter sucesso como piloto, e fica irritada quando eles conseguem melhores resultados que os seus nos testes e na prática. Ela começa, então, a perder a confiança em si mesma e fica reclusa, aumentando esse campo AT entre ela e os outros integrantes da NERV. Contudo, quando conhecemos o passado de Asuka, percebemos o real motivo da conduta da garota. A sua mãe enlouqueceu e morreu após os experimentos com a unidade 02, deixando Asuka traumatizada, o que é natural quando uma criança perde dessa forma. É por isso que a jovem piloto fica tão mal quando perde a confiança em si mesma, o maior pilar de sua personalidade autossuficiente e arrogante. 

O projeto de instrumentalização humana começa após o 17° anjo ser derrotado. Esse é um dos maiores problemas desse final de Evangelion, pois as verbas foram cortadas e uma parte enorme da história foi suprimida em 2 episódios. O filme The End of Evangelion demonstra melhor como ocorreu o final, mas não vou me ater muito aos detalhes, e sim ao papel do Shinji como opositor à instrumentalização. Após ser confrontado sobre sua identidade, Shinji decide aceitar seus defeitos e qualidades próprias, aceitar suas peculiaridades como indivíduo, o que interrompe o processo de instrumentalidade dele. A Asuka também acaba escapando do mar de LCL, e ambos serão responsáveis por repovoar a terra após esse diluvio causado pela instrumentalização humana. É interessante pensar como esses dois personagens, tão diferentes e conflituosos, foram os únicos a se libertar do mar de LCL. 

Concluindo, Evangelion é muito menos complexo do que parece. Você até pode buscar interpretações mirabolantes para alguns aspectos e conceitos da obra, mas não significa que seja impossível entender a mensagem geral da série sem se ater a esses detalhes. As relações entre os personagens, que traduzem as relações entre as pessoas, e como isso é amarrado com os outros detalhes do anime é o principal, na minha opinião. E isso não demanda tanta abstração e interpretação, pois faz parte do nosso cotidiano como pessoas, vivendo em sociedade. Usei como base, obviamente, a série original em anime e seus derivados, The End of Evangelion e Eevangelion Death & Rebirth, além de algumas partes do Rebuild. Vi alguns vídeos, que me ajudaram em maior ou menor grau, mas a grande inspiração pra esse artigo foi o do Quadro em Branco, intitulado Sobre o que Evangelion REALMENTE é. O vídeo do canal Video Quest, chamado FINAL EXPLICADO! Entendendo o mundo de Evangelion, também foi importante. Agradeço por ler até aqui e espero sua opinião nos comentários! Até a próxima!

Diego Almeida
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